Rolando Boldrin | Crédito imagem: Bruno Tadashi
Festival Sesc de Música Raiz recebe artistas da música caipira, valoriza o segmento e dá destaque ao trabalho de novos compositores

O Brasil viveu intensamente no início do século XX um processo de urbanização. O advento dos meios de comunicação de massa acabou por padronizar modos e costumes e a cultura rural foi sendo gradativamente relegada. O termo caipira passou a ser associado, de maneira pejorativa, a um brasileiro sem acesso à informação, matuto, rústico e sem refinamento cultural. Mazzaropi com seu personagem Jeca Tatu apresentou no cinema as mazelas do homem rural, muitas vezes vítima da fome, da carência do acesso à saúde e à falta de infraestrutura e desassistido pelo Estado.
Novos compositores
Por entender a necessidade de criar oportunidades para que este gênero musical seja resgatado e para valorizar os músicos, cancioneiros e violeiros brasileiros, o Sesc PR realizou em agosto o Festival de Música Raiz, no Teatro do Sesc da Esquina.
Durante o Festival, os músicos paranaenses Murilo Silvestrim (Curitiba), João Maria Garcia Ferreira (Ponta Grossa), Ricardo Denchuski e Daniel Pereira de Souza (Cascavel) e Jean Carlos Girelli (Realeza) trouxeram composições autorais que enaltecem a vida simples do campo, a fauna, a flora e paixões.
Para Silvestrim, sua relação com a música de raiz é longa do ponto de vista da escuta e recente na execução. “Desde meu avô escuto música de raiz. Meu pai também ouvia e durante a minha vida eu vim ouvindo esta música, gostava muito do Tonico e Tonico, uma dupla referência para qualquer violeiro. Esta música está na minha memória afetiva e ela acabou por influenciar no presente, mas minha proximidade com este gênero só se deu a partir do momento que eu comecei a usar a viola”, conta o músico.
Na abertura do evento, o músico, ator, apresentador e ferrenho defensor da música brasileira, Rolando Boldrin, trouxe ao público o show “História de Amar o Brasil”.
Senhor Brasil
Com mais de 50 anos de carreira repleta de causos, histórias e música, Boldrin está há 37 anos no ar. Desde 2005, apresenta pela TV Cultura, com o apoio do Sesc, o programa Sr. Brasil – um espaço de divulgação da cultura brasileira e sua diversidade.
Boldrin defende que é necessário “tirar o Brasil da gaveta”, trazendo ao conhecimento do grande público, artistas, cantadores e causos brasileiros que não encontram espaço na mídia tradicional. “A grande mídia trabalha com o imediatismo, com o sucesso, o notório e se esquece que existem outros estilos musicais. Em contrapartida a esta invasão, eu criei o meu programa para mostrar que temos uma música brasileira que não era divulgada e valorizada, que é música caipira. Quero tirar da gaveta artistas que não têm a oportunidade de mostrar o seu trabalho por causa do preconceito deste segmento da mídia. Eu sou um encarregado de mostrá-los na televisão”, explica Boldrin.
O artista relembrou que foi a música produzida pelo homem rural que despertou o interesse da paulistana Inezita Barroso. Durante seus 90 anos de vida pesquisou e registrou contos e cantos populares. Com seus estudos, Inezita produziu um panorama da música caipira e do folclore próprios do Brasil.
Nhô Belarmino e Nhá Gabriela
Nome artístico do casal paranaense Salvador Graciano e Júlia Alves Graciano, Nhô Belarmino e Nhá Gabriela formaram a dupla caipira mais famosa do Paraná. Na década de 1950 gravaram os clássicos As mocinhas da cidade e Passarinho Prisioneiro.
Lembrando a trajetória da dupla, Boldrin destacou a autenticidade como a marca principal. “O segredo para que uma boa música caipira perdure é a autenticidade. Nhô Belarmino e Nhá Gabriela eram um casal e eram autênticos. Faziam um humor que eu reverencio sempre, um humor caboclo, simples, caipira. Belarmino compôs músicas que ficaram na história. O que você tratar com autenticidade perfura, é eterno”, defende Boldrin.
Viola
Reconhecidamente, a viola é um instrumento com brasilidade, não existe apenas uma forma física do instrumento e há um vasto repertório espalhado pelo Brasil. Peculiar e diversa, ela é única em sua pluralidade e unânime no gosto popular.
Foi a partir do instrumento português chamado cravo, que o brasileiro criou a viola. “A viola brasileira é regional, próprio do campo, criado a partir do cravo, que veio com os portugueses. Ela ficou caracterizada como um instrumento do homem da roça, com mais de 30 tipos de afinações. Como a viola é um instrumento deste ambiente tão rudimentar e tão brasileiro, ela foi sendo utilizada também para acompanhar os cantadores dessas regiões”, conta o autêntico Boldrin.
João Maria Garcia Ferreira, o Zé Garcia, trouxe ao festival a simplicidade do violeiro e sua música contou a história de sua vida. “Esta é uma oportunidade muito importante para um homem como eu de 73 anos. Fui criado no interior de Ponta Grossa, fui caminhoneiro por 32 anos e a música que eu canto e toco é a minha própria história. Foi no meu rádio à válvula que comecei a ouvir modas de Pedro Bento e Zé da Estrada, Tonico e Tinoco, Lourenço e Lorival, Tião Carrero e Pardinho e, como não tenho estudo na música, eles foram e são a minha grande referência”, conta.
Texto: Silvia Bocchese de Lima
Fotos: Bruno Tadashi
Revista Fecomércio PR – nº 125
