Banda Blindagem em 2025 | Crédito imagem: Estudio Vieira
Parte da identidade musical curitibana, a curitibana Banda Blindagem chega a meio século de história
Poucas bandas brasileiras conseguiram atravessar meio século de história mantendo não apenas a coesão musical, mas também a essência de um sonho coletivo. A Blindagem, maior representante do rock paranaense, chega em agosto de 2025, aos 50 anos de trajetória. Os cinco integrantes: Paulinho Teixeira (guitarra), Rubén “Pato” Romero (bateria), Paulo Juk (baixo), Alberto Rodriguez (guitarra) e Willian Vox (vocal e violão) são a atual formação do grupo musical que se tornou parte da identidade cultural de Curitiba e do Paraná.

Fundada em 1975, a banda nasceu na cena cultural que ainda engatinhava fora do eixo Rio-São Paulo. A ousadia da Blindagem foi transformar a capital paranaense em território de rock autoral, com letras densas e arranjos que buscavam diálogo com a poesia e a vida cotidiana da região. Não demorou para que o grupo se tornasse símbolo local, uma referência de autenticidade.
Identidade curitibana e legado cultural
A Blindagem não é apenas lembrada e seguida pela sonoridade, mas pelo que representa. Músicas e álbuns como Cheiro do Mato, Rock Pinhão e Oração de um Suicida, carregam mensagens de defesa da natureza e da cultura regional. No segundo EP, a banda chegou a gravar uma homenagem às Sete Quedas (Adeus Sete Quedas), pouco antes da inundação causada pela construção da Usina de Itaipu. Esse vínculo com temas ambientais e sociais reforçou sua relevância além do palco. “Nossas músicas têm muito a ver com a defesa da natureza, do meio ambiente, das praias. Acabaram com a beleza das Sete Quedas e fizemos uma música para homenageá-las, tocamos diversas vezes em Guaíra e nos tornamos cidadãos honorários da cidade. O mesmo ocorreu com Lá Vai o Trem, que escrevemos em 1985, em comemoração aos 100 anos da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá”, contou o baixista Paulo Juk.

Não por acaso, a banda tornou-se presença simbólica em eventos que buscavam representar Curitiba e o Paraná. Durante a final do Campeonato Brasileiro entre Atlético Paranaense e São Caetano, em 2001, por exemplo, a imprensa buscou elementos que traduzissem a identidade curitibana – e encontrou na Blindagem a resposta. “Eu acredito que conseguimos criar uma marca, uma identidade curitibana”, avaliou o baterista Pato.
A parceria com o poeta Paulo Leminski foi outro marco fundamental. Embora nem todas as canções compostas por ele tenham sido as de maior sucesso da banda, o diálogo entre música e poesia elevou a banda a um patamar artístico singular. Letras consistentes, que sempre “dizem algo”, são até hoje a espinha dorsal do grupo.

Desafios do mercado e a resistência
Apesar da qualidade musical, a banda sempre enfrentou as limitações do mercado regional. Como lembram os integrantes, “as coisas que dão certo acabam saindo do Paraná”, pontuou Rodriguez. Foi assim com vários artistas que buscaram espaço nacional. A Blindagem, porém, manteve-se enraizada em Curitiba, consolidando-se como marca local e desafiando o tempo.
Essa resistência é, em grande parte, fruto da união entre os integrantes. Ao longo da história, muitos deixaram empregos, oportunidades e até convívio familiar em nome do sonho coletivo. “Perdemos o Ivo, em 2010, o maior baque para o grupo, mas acreditamos que o maior mérito que tivemos foi permanecermos unidos, manter 50 anos de banda com os mesmos integrantes. Isso tem a ver com a energia interior, com o respeito pelo sonho da banda”, afirmaram.
Renovação e tecnologia
Se no passado a comunicação pode ter sido um ponto de fragilidade, hoje a Blindagem se reinventa com as plataformas digitais. O grupo encontrou no sistema Dolby Atmos – uma experiência de áudio imersiva e tridimensional – um novo caminho para modernizar sua sonoridade e alcançar públicos além das fronteiras. A democratização dos streamings abriu espaço para que suas músicas circulem na Alemanha, Itália e em qualquer lugar onde a curiosidade musical leve ouvintes a descobri-los.

O reconhecimento ultrapassa gerações: em shows recentes, pais apresentaram a banda aos filhos, e filhos já a apresentam aos netos. “Três ou quatro gerações convivem em torno das canções. Esses dias estávamos no Cotolengo e passou um rapaz com a esposa e o filho. O pai me olhou e falou para o filho… ‘olha, ele é o cara que faz aquele solo da banda que te falei’, dando referência para o menino. Aí ele me olhou e falou: ‘Meu pai me apresentou vocês e agora eu estou apresentando vocês para o meu filho!’, contou orgulhoso Teixeira.
Consistência e inspiração
A história da Blindagem também é marcada pela disciplina artística. Mesmo diante das dificuldades, os músicos nunca abandonaram o sonho. Houve momentos de dúvida, de cansaço e até de quase desistência, mas a lealdade entre os integrantes falou mais alto. Para eles, o maior conselho às novas bandas é simples: persistir.

Em julho deste ano, o grupo foi convidado para encerrar o II Festival de Bandas e Grupos de Música Popular do Sesc PR (Festiban), e lotou o Teatro do Sesc da Esquina com fãs de diversas gerações. Em setembro, a banda celebra os 50 anos no Teatro Guaíra, no dia 19.
Foi a persistência da Blindagem que construiu o legado da banda, que não é apenas um capítulo da música paranaense, mas uma referência cultural. Mais que música, a Blindagem se tornou Curitiba – sua voz, sua memória e sua identidade.
Texto: Silvia Bocchese de Lima
