Sesc Paço da Liberdade | Crédito imagem: Cassiano Rosário
Prédio que abriga o Sesc Paço da Liberdade, em Curitiba, completa 110 anos. Cada detalhes de sua construção é um convite à apreciação histórica
Dos 333 anos da capital paranaense, o edifício que abriga a unidade cultural Sesc Paço da Liberdade acompanhou o último um terço e carrega em cada elemento que ornamenta suas paredes, fachadas, tetos, e até o chão, mais do que detalhes arquitetônicos. Em seus 110 anos, cada ornamento do prédio é capaz de transformar esta histórica construção em linguagem, comunicar valores, narrar contextos de época e chega a revelar a identidade cultural do lugar onde foi construído – o centro histórico curitibano.
Inaugurado em 24 de fevereiro de 1916, na Praça Generoso Marques, o antigo Paço Municipal foi projetado pelo urbanista e então prefeito Cândido de Abreu, com colaboração do escultor Roberto Lacombe. O prédio foi construído para ser a primeira sede própria da Prefeitura de Curitiba – função que desempenhou por 53 anos, até 1969. Além do Paço da Liberdade, são exemplos de projetos de Cândido de Abreu, em Curitiba, o Palacete Ascânio Miró, o Palacete Leão Júnior e o Palácio Belvedere, localizado na Praça João Cândido.
São justamente os detalhes do prédio do Paço da Liberdade que revelam como o início do século XX foi um período rico no estado, marcado pelo ciclo econômico da erva-mate, responsável pelo desenvolvimento do Paraná, pela construção de importantes estradas e edificações públicas, pelo surgimento dos barões do mate e pela autonomia da província, que havia se emancipado de São Paulo há pouco mais de 60 anos. Uma das provas da importância deste ciclo não é meramente decorativa, é simbólica e está no pavimento térreo, onde o visitante visualiza duas colunas greco-romanas em granito negro, extraídos de Piraquara, onde foram esculpidas folhas e sementes de erva-mate – o ouro verde do estado.
De acordo com o especialista em Patrimônio Histórico e Restauro e gerente de Acervo e Pesquisa do Departamento de Arquivo Público Municipal de Curitiba, Kelton Sabatke, a construção do prédio custou mais de 85% do orçamento da cidade. “A Prefeitura de Curitiba contratou um empréstimo de cerca de 600 contos de réis. Para se ter uma ideia, o orçamento do município para 1913 era de aproximadamente 730 contos de réis. Foi uma construção muito onerosa para a cidade, mas que deu à Curitiba uma sede de prefeitura à altura do status que a cidade estava adquirindo”, pontua Sabatke.
Prédio único
O prédio é um dos mais importantes monumentos do município, com linhas arquitetônicas que se enquadram no ecletismo, com predominância do Art Nouveau, estilo marcado pela decoração elaborada e formas curvilíneas ou sinuosas, presentes nos portões de ferro da entrada principal, na marquise voltada para a Praça Borges de Macedo e nas esquadrias de madeira.

Decorando seu interior, há portas de imbuia; uma escada em espiral com 82 degraus, construída em peroba rosa, originária da Serra da Prata – litoral paranaense –, e um elevador vindo da Europa – o primeiro de Curitiba, da norte-americana Otis Elevator Company. O arquiteto Abrão Assad, responsável pelos projetos de restauro do prédio em duas oportunidades, nas décadas de 1970 e 2000, salienta que Cândido de Abreu esteve na Europa quando o prédio ainda estava em construção e trouxe para cá o primeiro elevador da cidade, mas o prédio não havia sido projetado para recebê-lo. A solução encontrada foi instalá-lo no vão da escada, o que Assad considera como um “pecado original” em uma construção neoclássica, por comprometer a iluminação natural e a beleza do espaço. “O elemento arquitetônico mais rico do interior de um prédio dessa época é a luz etérea que banha toda a escada. Tomamos a ousadia, em 1972, porque eu considerei um pecado, removemos e colocamos o elevador na torre, recuperando este importante espaço”, revela.

Repletas de significados são as esculturas espalhadas pelo prédio do Paço, obras de Roberto Lacombe. Dois Atlantis sustentam a entrada principal e significam os dois poderes municipais: legislativo e executivo. A figura feminina, localizada na torre central, simboliza a cidade de Curitiba. Completam a ornamentação da torre – demonstrando força – cabeças de leões.

A construção é um marco histórico da capital paranaense, sendo o único prédio curitibano com tombamento nas três instâncias: municipal, estadual e federal. São 2.205,07 m2 de área construída. “Considero este prédio único em nossa cidade, um representante de uma época pujante da nossa economia e da nossa cultura. Estamos vivendo globalmente uma grande rejeição aos imigrantes, mas este prédio mostra a contribuição e o trabalho minucioso desses diferentes povos”, pontua Assad.
No alto, a Sala de Atos guarda um dos conjuntos artísticos mais expressivos do edifício. São 25 painéis com pinturas a óleo sobre tela, fixados em estuque, que remetem à mitologia clássica, sendo atribuídas a João Gheldi, João Ortolani e Anacleto Garbaccio. A escolha temática não é casual: reforça a ideia de grandiosidade e de permanência, como se o prédio, desde sua origem, estivesse destinado a atravessar gerações.
O chão também guarda segredos e marcas. As obras de revitalização e escavações realizadas pelo Sesc PR, na década de 2000, revelaram o piso do antigo Mercado Municipal de Curitiba. No andar térreo, o visitante pode visualizar este bem arqueológico por meio de quatro vitrines.
Outros usos
O prédio também foi sede da Câmara de Vereadores desde a sua inauguração até 1955. Na década de 1970, um convênio firmado entre o estado e o município permitiu que o Paço da Liberdade se tornasse sede do Museu Paranaense, até 2002 e, a partir de então, ficou abandonado por cinco anos.
O prédio abrigou o gabinete de 42 prefeitos de Curitiba, e é desde 29 de março de 2009, graças a uma parceria do Sistema Fecomércio Sesc Senac PR e da Prefeitura de Curitiba, um centro de lazer e cultura e de um Café-escola do Senac PR. “Em março deste ano celebramos os 17 anos de funcionamento da nossa unidade cultural Sesc Paço da Liberdade e do nosso Café-escola e posso afirmar que estes espaços se tornaram locais de conhecimento, entretenimento e encontro, além de um ponto turístico, responsável por atrair milhares de visitantes de todos os cantos do planeta”, enfatiza o presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac PR e vice-governador do Paraná, Darci Piana.
Sesc Paço da Liberdade
O Sesc Paço da Liberdade é um centro cultural localizado no centro histórico da capital paranaense, aberto ao público, e oferece exposições de arte, biblioteca, cursos e oficinas, cinema e audiovisual, palestras e eventos culturais, espaços de convivência, café e áreas de estudo. Tudo com o intuito de promover cultura, educação, memória e convivência.
O espaço também conta com a Sala Cândido de Abreu, onde foi revitalizado o gabinete do primeiro prefeito e mentor do edifício, preparado com móveis originais e pertences pessoais de Cândido de Abreu.
O Café do Paço é um local para saborear diferentes e sofisticados tipos de cafés, doces e salgados finos, além de coquetéis à base de café. O espaço também funciona como escola para formação de baristas e demais profissionais de gastronomia.

Quem visita a unidade tem a oportunidade de conhecer a loja e a livraria que funcionam na unidade, buscando incentivar e valorizar a produção de escritores e editoras independentes. Entre os livros presentes no acervo, figuram desde bons títulos da literatura infantil a registros da memória e história da cidade, passando por primorosas edições da literatura, patrimônio e histórias em quadrinhos.
No Laboratório de Arte Eletrônica uma inovação para o cenário na cidade. O Paço da Liberdade disponibiliza o acesso mais amplo de criação e expressão, realizando cursos e oficinas com uma série de opções técnicas e artísticas para produção digital no campo da fotografia, do audiovisual, das ilustrações e quadrinhos.
A Sala de Atos é um local reservado para shows, concertos, recitais, palestras, ciclos e conferências. Reunindo infraestrutura com direção técnica de alto padrão, o estúdio foi criado para dar vazão à produção musical autoral com pré-produção finalizada. Os trabalhos de produção e pós-produção de áudio são realizados gratuitamente.
Novo restauro
Historiadores atestam que o edifício já passou por pelo menos três reformas. Em 1922, quando da primeira reforma, no vão da escada foi instalado o elevador elétrico, com portas pantográficas. Em 1972, Abrão Assad – arquiteto autor de obras emblemáticas da cidade de Curitiba, detentor de prêmios nacionais e internacionais – ao lado do arquiteto Cyro Corrêa Lyra, foi responsável por adaptar o prédio antigo a uma construção dinâmica, como o Museu Paranaense. Nesta oportunidade, Abrão conta que o elevador original foi transferido de lugar e, uma antiga mansarda, que não tinha função, foi transformada em um quarto pavimento. Em 2007, coube novamente a Assad a elaboração dos projetos arquitetônicos de reciclagem e de arquitetura de interiores e, ao arquiteto Humberto Fogassa, a responsabilidade pela obra contratada pelo Sesc PR. Cerca de 80 restauradores, operários e técnicos trabalharam para colocar em prática as duas etapas do projeto: o restauro (seguindo as mesmas técnicas da época em que foi construído) e a reciclagem (reformas de construção civil) do prédio. Neste terceiro restauro do prédio, além de recuperar a arquitetura do século passado, escavações realizadas revelaram o piso do antigo mercado municipal de Curitiba. “A restauração de um prédio é mais difícil e demorada do que a construção original. Exige a preservação da autenticidade e a reprodução fiel da qualidade e das técnicas originais, o que demanda tempo e profissionais altamente qualificados”, destaca Assad, lembrando que o prédio foi construído em 560 dias e a terceira revitalização levou 639 dias.

Um novo restauro está programado para ocorrer ainda em 2026, para recuperação de elementos históricos, conservação e reformas gerais para melhorar a estrutura e garantir a excelência no atendimento ao público, interferindo o mínimo possível na programação cultural do Sesc Paço da Liberdade.
Celebrar os 110 anos do edifício é mais do que lembrar datas. É reconhecer que a memória de uma cidade também se sustenta nos detalhes.
