Eliana Brasil | Crédito Imagem: Bruno Tadashi
Por décadas restrita ao seu labor, história da multiartista Anita Cardoso Neves começa a ser revelada na capital paranaense
O escritor uruguaio Eduardo Galeano, em De pernas para o ar, é categórico ao afirmar que “não existe história muda. Por mais que a queimem, por mais que a mintam, a história humana se recusa a fechar a boca”. Por muitos anos a história de Anita Cardoso Neves – nome artístico de Emerenciana Cardoso Neves –, foi ocultada e sua identidade mantida no anonimato.
Recém-chegada a Curitiba, no fim da década de 1990, a hoje artista plástica Eliana Brasil, ao percorrer o centro da capital paranaense, na Praça Generoso Marques, aos fundos do Paço da Liberdade, deparou-se com uma estátua, voltada para o local onde em 1668 foi erguido o Pelourinho. “Fiquei tocada pela figura da mulher negra, esguia, que altiva e resistente, sustenta no alto da cabeça o pesado fardo – na ocasião eu não sabia o nome da obra, se era réplica ou não e nem quem era seu autor. Em minha negritude sabia muito bem o contexto, por íntima leitura social: a mulher carregando a lata d´água vai subir o morro para matar a sede e a fome dos seus”, conta Eliana.
A estátua a que Eliana se refere é a Água pro Morro, datada de 1944, do escultor Erbo Stenzel, que a Prefeitura de Curitiba inaugurou com a seguinte inscrição: “Maria Lata D´Água – fonte edificada pela cidade de Curitiba em maio de 1996 para celebrar a memória do escultor local Erbo Stenzel (1911-1980) – Rafael Greca de Macedo – Prefeito”.
A inquietação de Eliana a levou a pesquisar a história desta mulher e a dar voz à Anita, escrevendo o ensaio Patchwork – Tecendo uma Identidade. “Ela foi uma figura extremamente importante para a cultura brasileira, em especial para a cultura e para a arte do Rio de Janeiro. Ainda há muita coisa a descobrir sobre quem foi Emerenciana e a grandeza da produção desta multiartista”, destaca Eliana.
Revelando Anita
Anita nasceu Emerenciana no dia 14 de março de 1918, na cidade do Rio de Janeiro. Foi poetisa, cantora, compositora de sambas-enredo e escultora. Morava aos pés do morro de Santo Antônio, na Estrada da Pedreira, nº 76, local próximo à sede da Escola Nacional de Belas Artes, onde trabalhou na cafeteria do Diretório Acadêmico, que funcionava nas instalações da ENBA. Ela estudou desenho e gravura no Liceu de Ofícios e, em 1953, seu nome estava entre os aprovados no concurso de habilitação da ENBA para o Curso de Escultura, concluído em 1959. “Sua figura alegre e espontânea, o espírito enérgico e autoconfiante logo a fizeram conhecida e admirada nas rodas artísticas. (…) Eventualmente trabalhava como artista de variedades, como atriz ou como cantora de músicas populares em programas de rádio, principalmente em vésperas de carnaval”, descreve o Programa de Preservação da Arte Escultórica Paranaense – Primeira Metade do Século XX, publicado pela Prefeitura de Curitiba, em 1995.

Jornais do Rio de Janeiro dão conta que Anita era uma artista reconhecida e requisitada para se apresentar em eventos e em festividades. Em uma página dedicada à artista, o jornal Última Hora (RJ), de 1952, descreve seu trabalho como “arte saudável, sem morbidez nem falsos problemas, tão sem máscara como Anita, estourando de saúde e robustez nos seus 33 anos bem vividos. (…) Calma, concentração, saúde e esperança – esta é a mensagem de Anita através das formas que surgem das suas mãos”.
Embora a relação de Anita com o Paraná tenha ocorrido por conta do escultor Erbo Stenzel, ela e um grupo de alunos da ENBA estiveram em caravana visitando a cidade de Guaíra, na Região Oeste Paranaense. O jornal A Noite, de 1957, salienta que a escola, ao promover a excursão, queria proporcionar aos alunos a oportunidade de conhecer as belezas naturais do Brasil. Aos visitantes cariocas foi organizada uma sessão artística denominada Momento de Poesia, oportunidade em que Anita foi convidada a declamar a poesia Sete Quedas, de sua autoria.
Por que corres tanto, Senhora?
Onde vais com tanta pressa?
Com essas saias rendadas com um barulho tão grande, parece estar zangada.
Onde vais com tanta pressa?
À procura de alguém que amas?
– Vai, Senhora, para longe, bem longe,
para perto do seu amor”.
O jornal destaca que de todo o grupo de visitantes, o comandante da 5ª Companhia de Fronteiras, coronel Hermogêneo Azeredo Encarnação “dirigiu à poetisa Anita Cardoso Neves uma carta de agradecimento pela visita da caravana da Escola Nacional de Belas Artes”.
Em 1971, o Jornal do Brasil trazia foto da artista, com destaque, enfatizando que ela tinha sido ganhadora da Medalha de Bronze do Salão Nacional de Belas Artes em 1970, com um trabalho de escultura. “Começou a pintar e esculpir aproveitando as horas vagas de seu trabalho da ENBA, que lhe permitiram frequentar os cursos livres de pintura, escultura, desenho e modelagem. Hoje, é artista conhecida, com muitas exposições em várias cidades brasileiras, mas continua a trabalhar como auxiliar de disciplina na Escola Nacional de Belas Artes, a atividade de que mais gosta”, traz a matéria.
O escultor
Embora alguns acreditem que Erbo Stenzel (1911-1980) tenha nascido em Paranaguá, sua Certidão de Nascimentonão deixa dúvidas de que foi em Curitiba, na antiga Rua América (atual Trajano Reis), que ele nasceu em 17 de dezembro de 1911.
Stenzel foi um importante escultor e artista plástico, tendo sido responsável pela criação de diversos monumentos e bustos de personalidades paranaenses. Iniciou sua formação no campo das artes plásticas com Lange de Morretes e foi aluno do escultor João Turin.
Em 1939, ele já era reconhecido por seu talento. O jornal A Pátria (RJ), de 12 de março de 1939,traz com destaque a matéria intitulada “Um artista de futuro”, informando que Stenzel teria seus estudos na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, patrocinado pelo governo paranaense. “Apezar de muito joven ainda, Erbo Stenzel, senhor de fina sensibilidade artística, já é um esculptor de apreciavel renome na terra da araucaria, onde participou de numerosas exposições officiaes, conquistando sempre honrosos laureis. (….) Erbo Stenzel constitue sem a menor duvida a mais promissora revelação artística da nova geração paranaense”, trazia a matéria.

No Rio de Janeiro o escultor permaneceu por 11 anos e retornou a Curitiba em 1950. “Com o falecimento de Turin, o governador Moysés Lupion convidou-me a voltar ao Paraná para terminar uns trabalhos iniciados pelo grande escultor”, informava Stenzel em um documento datado de 9 de março de 1972, de posse do Museu Oscar Niemeyer (MON).
No Programa de Preservação da Arte Escultórica Paranaense – Primeira Metade do Século XX, consta que o interventor Manoel Ribas autorizou a subvenção de 350 mil réis para custear os estudos de Stenzel no Rio de Janeiro, onde matriculou-se no curso livre de Escultura da ENBA, que concluiu em 1943. Seguiu estudando no Liceu de Artes, onde cursou gravura e água-forte.
O encontro de artistas
Erbo Stenzel ansiava pelo prêmio do Salão Nacional de 1944 – uma viagem de estudos ao exterior –, e para concorrer decidiu modelar Água pro Morro, “figura de jovem negra carregando uma lata d´água na cabeça.
Tendo como modelo a namorada Anita, Erbo apropriou-se de uma cena banal do cotidiano carioca – um ritual que retemperava a ligação do morro com a cidade moderna – para perenizar uma imagem ameaçada de desaparecer em meio à urbanização acelerada da então capital federal”, traz o Programa de Preservação da Arte Escultórica Paranaense – Primeira Metade do Século XX.

Stenzel não conseguiu a tão almejada viagem, mas recebeu o título Hors Concours. A maquete em bronze de Água pro Morro, de 35cm de altura, foi exposta, em 1948, no Salão de Belas Artes da Ilha do Governador.
Dois anos depois, em 1950, apresentou a peça em tamanho natural no III Salão de Belas Artes do Clube Concórdia, oportunidade em que recebeu a medalha de ouro.
Eliana Brasil conta que por anos, enquanto vivo, a escultura em gesso permaneceu na varanda da casa do artista, em Curitiba. A obra foi colocada em um depósito da família, nos fundos da garagem, depois transferida para um porão. Durante um dos transportes, a escultura foi derrubada, a cabeça separada do tronco e, os registros apontam que nessa queda, a perna direita foi despedaçada e uma boa parte da esquerda foi estilhaçada. Após algumas intervenções, recuperação definitiva e fundição em bronze e exposição em praça pública. Em 2008, uma réplica da estátua foi inaugurada e faz parte do acervo do MON.

Para Eliana, dar voz à Anita é necessário pois ela “representa a força da mulher negra brasileira, desde o sequestro na África, até a chegada no Brasil. Significa tudo o que estas mulheres contribuíram, todas as violências múltiplas que sofreram para chegarmos hoje aqui e dizer, que ainda hoje, as mulheres negras estão na base da pirâmide, sofrendo outras múltiplas violências, e seguimos reféns de uma estrutura que é machista e racista”, pontua.
Revista Fecomércio PR – nº 147
Texto: Silvia Bocchese de Lima
Fotos: Bruno Tadashi
